A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom
de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da reconciliação com a
carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à
revolução da ternura. Papa Francisco, na exortação apostólica “A alegria do Evangelho”, n. 88
Queridos irmãos e irmãs,
Sem dúvida, a novidade desse Natal de 2013, para nós e para toda a
Igreja Católica, é a voz profética do papa Francisco. Na exortação
apostólica
Evangelii Gaudium, ele atualiza para nós as palavras
do anjo aos pastores de Belém: “Eu vos anuncio uma grande alegria” (cf.
Lc 2,10). O papa retoma o anúncio do Natal, não como repetição do
nascimento de Jesus e, sim, como atualização da sua vinda entre nós, a
trazer-nos o seu reino de alegria, justiça e paz, em meio às
contradições do mundo. Para nós, a memória do nascimento de Jesus, em
Belém, deve nos levar a um novo nascimento pascal, em nosso caminho de
conversão cotidiana. Infelizmente, muitos cristãos transformaram essa
dimensão de Advento do Reino apenas em uma celebração sentimental do
Natal, como se se tratasse de uma repetição do nascimento de Jesus. Enzo
Bianchi, prior do Mosteiro de Bose (Itália), chama isso de “ingênua
regressão devota que empobrece a esperança cristã”.
Ao contrário, o papa Francisco nos convida a vivermos hoje a
espiritualidade do Natal, assumindo a humanidade como Jesus. Convida-nos
a nos abrir, cada vez mais, a todas as pessoas que encontramos e a elas
manifestar, pelo nosso modo de ser, “a bondade e a simpatia do nosso
Deus” (Tito 3, 3-7). Para isso, temos de dar o testemunho de uma Igreja
mais simples, pobre e verdadeiramente “em saída”. Desde que nasceu,
Jesus viveu o que o Novo Testamento chama de
kénosis (esvaziamento de si mesmo). Fez-se pobre e pequeno, até a morte e morte de Cruz (cf. Fl 2,5ss).
A nossa arquidiocese é chamada a retomar sua história de Igreja em
missão, especialmente a partir dos pequeninos e a inserir-se nos
problemas sociais e humanos de nossa realidade. Nesse Natal, como pastor
da Igreja de Olinda e Recife, renovo o meu compromisso de servir a
todos vocês, como “irmão e companheiro nas aflições e no testemunho do
reino” (Ap 1,9).
Comprometo-me a sempre mais manifestar o jeito de irmão e servidor
junto com vocês todos/as, mais do que o de chefe e líder da porção do
povo de Deus a nós confiado. Contem comigo, para animá-los nos momentos
de desânimo, confortá-los nas dificuldades e encorajá-los no caminho do
reino. Que, nesse Natal, as pessoas possam ver que, realmente, o Verbo
se fez carne pelo fato de que nós, padres, diáconos, religiosos/as e
todos os cristãos, nos tornamos pessoas tão verdadeiramente impregnadas
de humanidade que só mesmo sendo cheios/as da presença divina. Feliz
Natal e próspero Ano Novo para todos vocês.
Dom Antônio Fernando Saburido, OSB
Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife